1. Esta semana aprendi o quanto é fácil contentar o Tuga: uma queda em directo e temos o país a reluzir de felicidade, a estrebuchar de contentamento, a esquecer a crise, o défice, o orçamento e, sobretudo, a pequenez que, somada, leva confrangedoramente a este estado alarve ao qual nos fomos placidamente acomodando. Ao ter caído no programa da SIC, ÍDOLOS, levei a casa de cada um de nós um pouco de esperança, de luz, da ambição há muito perdida. Ainda coçando a careca que embateu no chão, e sob os holofotes cáusticos do povo de gengivas abertas, já eu me apercebia de que a miséria humana dos outros leva cada qual a sentir-se maior e mais poderoso ainda que por breves instantes. Valha-nos a net, o Youtube, o Facebook e afins, para podermos resfolegar de contentamento numa espécie de masturbação colectiva, de ejaculação de boçalidade primitiva há muito contida, vezes e vezes sem conta. E o país lá foi, cabisbaixo e remoído dos salários baixos e da vida de miséria de cada um, prostrar-se face ao ecrã e rever vezes sem conta a queda que, se de física pouco teve, de simbólica muito expressou. Assim, enquanto os ‘jornais’ ecoavam a dita, e nos telejornais teve a mesma honras de fecho, cada qual recolhia do frigorífico as sandes de porco, o garrafão da despensa, os cigarros contados e o whisky há muito a pedir para ser engolido, para se compenetrar naquela visão idílica de me ver tombar num regozijo transcendente de espasmo só dado às plebes em fúria. E de repente Tugal revelou-se: este é o mesmo sentimento que reunia em autos-de-fé a turba sedenta no Terreiro do Paço, a massa ululante medieva que esquartejava o que de mãos atadas lhes era atirado, espectadores dum circo em que são eles as bestas e não os animais que atiçam. Se eu soubesse o quanto era fácil fazer feliz este país, há muito me teria atirado para o chão. Em nome da Pátria.
2. O simbolismo do meu trambolhão é muito mais do que aparenta à superfície: é a revolta dos infelizes sobre os outros, a certeza de que quem tem sucesso não escapa às leis da física, como tantos deviam julgar, mas, sobretudo, é a metáfora do ‘poder’ que se espalha desamparado no chão. Eu sei o quanto represento para os que amam ou odeiam o que faço. Mas numa coisa ambas as facções convergem: eu faço. E quem faz, ou quem faz bem, é duplamente invejado. Se fizer bem durante muito tempo, a inveja transforma-se num ódio calado que explode ao mais pequeno rastilho. Não foi a obra que caiu, porém. Apenas o obreiro. Mas isso já garante à multidão espaço para expandir o que durante tanto tempo reprimiu. E a net, onde todos aparentam ser iguais, é apenas o espelho da realidade: quem tem tempo para fazer grupos de amigos onde se partilham imagens de presidentes-de-câmara-a-baterem-com-a-te
3. No meio de tantos clicks de ratos, lá vai o meu nome catapultado para os tops dos motores de busca e isso sempre foi muito bom. É que tenho trabalho para apresentar, um disco para lançar a 12 de Abril, Obrigado. E o single, “Fazer o Que Ainda Não Foi Feito” já bomba nas rádios. Peço desculpa pelo sucesso que tenho e pelo dinheiro que faço, mas a realidade é que a inépcia dos outros é uma das minhas melhores ferramentas de trabalho, a mediocridade instituída um óptimo espaço para fazer realçar talentos que eventualmente possa ter e a preguiça dos enguiçados um lugar incrível para quem tem obra feita. Só não cai quem rasteja, quem julga que está de pé e comete esse fatal erro de perspectiva. Ninguém cai do sofá, do teclado do computador, e do chão para o chão não há distância alguma. É que para cair no palco da Final dos ÌDOLOS, é preciso estar lá. Estão a topar a ironia? J
Pedro Abrunhosa
Porto, 13 de Fevereiro de 2010
1. Conheço um indivíduo que sempre que me vê, dispara: ‘Temos que falar!’. Logo me manifesto pronto para o ouvir, adivinhando que lá vem cravanço ou proposta de negócio infalível, mas invariavelmente o dito desaparece na bruma de onde primeiro surgiu e mais não diz. A realidade é que mal o torne a desenterrar numa esquina qualquer, é certinho: ‘Temos que falar!’. Não lhe conheço o nome, e eu, que sou um incompetente na arte de decorar rostos e feições, lá o vou arquivando naquela categoria recôndita do cérebro dedicada aos ‘chatos’, onde também se encontram os ‘gajos-a-evitar’, os ‘mãos-moles’ (aqueles que não tem força no aperto de mão) e os ‘opinistas’ (aqueles que tem sempre opinião definitiva sobre tudo que a Humanidade fez ou fará).
A verdade é que esta expressão, tantas vezes usada pelos portugueses, carrega um fardo de História e aculturação plena de alma Lusa. Ela não é mais do que o exacto espelho daquilo em que nos tornámos: ‘Temos que falar!’ é diferente de ‘Vamos falar!’. A primeira reflecte uma vontade de algo nunca concretizado, enquanto a segunda é um imperativo implícito na atitude e na gramática. Nós somos muito mais, enquanto elite, a primeira, e enquanto plebe, a segunda. Passamos a vida a combinar jantares que nunca acontecem e cuja intenção é mudar o mundo, criar projectos, ‘cruzar inputs’, enquanto em Trás-os-Montes ou na Madeira, lá vai a Dona Preciosa todos os dias dar o manjar aos porcos e escavar as courelas. Enquanto ‘elite’, não passamos de um molho de ineptos aspirantes a qualquer-coisa que, não poucas vezes, acaba em ministro ou dirigente partidário. Tudo porque soubemos atirar um ‘Temos que falar!’ à pessoa certa no momento certo, geralmente um superior hierárquicó-social, que atravessava uma fase na vida mais mariscante (voltada para uma mariscada) do que concretizante. Todo o processo do ex-novo aeroporto da OTA é uma interminável série de almoçaradas, ‘discussões de projectos estruturantes’, larachas e campeonatos de golfe. Já se sabe: ‘Temos que falar!’. E foi assim que tudo começou. Mas também o seu inverso, Alcochete, teve a sua génese nesta já institucionalizada máxima nacional. Tudo gira à volta do mesmo: pareceres que afinal não ‘parecem’ e que tanto servem para construir como demolir. Venha de lá mais um almoço no Tavares que a falar de boca-cheia é que a gente se entende.
2. Quando me é dirigida esta frase, sei imediatamente que o seu autor se refere a um ‘projecto que tem em mente fazer’, um disco, um filme, uma ‘performance’, assim qualquer coisa vagamente criativa onde ele acha, se calhar bem, que eu me posso encaixar. A questão é que, em primeiro lugar, nunca o dito ‘projecto’ passará para além de uma tempestade neuronal, e, em segundo lugar, a sinapse que desperta tal ideia é o facto de eu me ter atravessado na sua frente e que desaparecerá mal eu atravesse a porta para a rua. Tenho a certeza de que este meu conhecido cria ‘projectos’ a cada instante, acomodados à pessoa e à profissão que tem naquele momento no seu campo visual. É o tipo de frase que ouvimos vezes sem conta em festas e cocktails, porque aí se misturam torrentes infinitas de ‘Temos que Falares!’ com potenciais vítimas destes franco-atiradores de vão-de-porta. De copo na mão lá andam um atrás de outros, enquanto os últimos tentam despistar os primeiros, para logo caírem num outro vão onde a célebre frase lhes é de imediato atirada por um terceiro acabadinho de chegar e cheio de ‘projectos a necessitar de serem falados urgentemente’. Este jogo do gato e do rato é a história da interação entre os que concretizam e os vulgarmente chamados ‘colas’, sendo estes últimos um up-grade, enquanto adultos, dos ‘colas’ do liceu que vulgarmente se penduravam nos que sabiam jogar bilhar e lhes colocavam giz nos tacos a troco de uma bolada e da sua companhia. Ser ‘cola’ não é fácil porque exige um lambe-botismo que vem, está visto, desde muito cedo, e cuja recompensa não está ao alcance de todos. É que o facto de saber jogar bilhar na adolescência não assegura ao bilharista lugar elegível em qualquer lista. É preciso ir estudando um bocadinho e inscrever-se numa juventude partidária. O ‘cola’ pode então estar mais tranquilo: mais tarde ou mais cedo lá chegará o convitezinho para dirigir uma secção regional de uma coisa-qualquer, assim uma espécie de pôr giz nos tacos mas em melhor.
3. A arte do ‘Temos que falar!’ é de domínio difícil. A leitura da Imprensa-de-Consultório é recomendada. Há sempre muito a aprender naquelas fotografias coloridas com mulheres decotadas e esticadas: são sempre a ‘esposa’ de alguém cuja profissão, cargo ou posto é conveniente memorizar porque sabe-se lá quão útil será tal informação na próxima Gala Benemérita pelos Bailarinos Coxos… É também difícil porque é preciso resistir à tentação de fazer alguma coisa, vulgo trabalhar. Afinal o que seria se se atravessasse à frente do candidato alguém assim verdadeiramente bem colocado, alguém que logo ali marcasse o almoço, e o ‘cola’ não pudesse por causa do emprego? Há que saber manter a postura: o ‘Temos que falar!’ não trabalha. Pensa. E pensa a tempo inteiro, em primeiro lugar no desenrascanço do jantar para esse dia (mas há sempre uma festa, uma vernissage, um ‘private event’) e depois nos ‘projectos’ inadiáveis que traz dentro de si e que vai aperfeiçoando até envelhecer. Altura em que, lá do alto, se abrirá uma nuvem de onde soará tronitroante: “Temos que Falar!”. E esse vai ser um jantar muito, mas mesmo muito difícil de desmarcar. Esse sim, um projecto inadiável para o qual convém estar pronto.
Pedro Abrunhosa
Porto, 12 de Janeiro, 2010
1. Oh, Não! Vem aí o Natal!! Lembram-se? É aquela época do ano em que somos todos iguais, todos muito amigos uns dos outros, em que se multiplicam concertos, leilões, quermesses, ‘eventos’ de solidariedade com tias que se desenterram dos sótãos nesta altura e pobrezinhos a preceito, coitadinhos, empurrados para um palco onde meninos enfiados em fatos engomados lhes entregam guloseimas inúteis e votos de prosperidades com beijos contra-feitos. Lá fora não há neve. Infelizmente. Caramba, já viram as boas filmagens que isto proporcionava? Assim uma espécie de “white christmas” à portuguesa onde as charretes da 5º avenida eram trocadas pelos fiats puntos da turba. Só na Serra da Estrela há neve a colorir o Natal dos mais pobres, esses sortudos... Que injustiça! É que aí não chegam estes beneméritos, estes benfazejos realizadores de ‘eventos’ porque não chegam as televisões. Se soubessem o trabalhão que dá reunir uma equipe de filmagens para reportar a pobreza da raia ou as dificuldades da vida na Beira-Interior, os infortunados migravam todos a Sul na ânsia de uma chávena de chá, duma bolachinha natalícia, e para nos pouparem a nós, citadinos sentados, a sofreguidão de importar pobres para encher os Coliseus em mais um concerto de apoio a uma ‘causa’ qualquer. Ser pobre está bem. Mas por favor, se quer que sejam ‘solidários’ consigo, vá ser pobre para Lisboa ou Porto. Os jornais não se vendem com a sua dor se ela não tiver uma pitada da Cascais ou fozeira. É que, enquanto se vai fazer a ‘reportagem’ que há-de fazer chorar os portugueses, sempre se almoça na linha um bom pregado-ao-sal. A bem dizer, nesta questão de centralidade, até nem estamos assim tão desequilibrados: é tal a concentração nas duas maiores cidades portuguesas de meios mediáticos ou mediúnicos, que também aí se deveria encontrar a maioria dos pobres de Portugal. Contudo, a pobreza é tão democrática que ignora o protocolo e instala-se de igual forma por todo o país. Vá-se lá entender isto. O sonho dos inventores de ‘eventos’ era poder concentrar tudo num gigantesco piquenicão de inverno ali ao Parque das Nações com directos a toda a hora e entrevistadores instalados pelas esquinas em busca da melhor oportunidade para filmar a lágrima alheia. Ah…Essa lágrima que faz furor na TV! Esse grande-plano que interrompe novelas e concursos e nos mostra a ruga húmida, fazendo-nos sentir mais próximos de sermos bons, nós que somos uns estupores de primeira apanha e que durante o ano nos marimbámos para o desemprego, a solidão, a descrença dos outros.
2. Mas pior, muito pior do que esta ‘bondade’ que subitamente invade o país em actos públicos, são as inefáveis mensagens de telemóvel, as sms’s, que nos entopem a caixa postal, nos ensarilham os dedos na imbecil tentativa de resposta, e que parecem não mais acabar tal é o frenesim com que o toque de “mensagem recebida” nos ataca noite e dia sem quartel, quando dormimos, fazemos necessidades ou tentamos fazer uma chamada realmente importante. É que quando a Josefina da contabilidade, a quem demos o número com intenções menos natalícias e com quem apenas trocámos um tímido olhar em Março, nos escreve ‘se um dia te sentires sozinho/ olha para o céu/ a estrela mais cintilante/ serei eu a velar por ti/ feliz natal e bom ano novo/ ass: Josefa’, então é porque já o nosso telemóvel se tornou numa fonte de inesgotáveis maravilhas da estação, umas sem cedilhas, outras sem acentos, outras apenas abreviaturas, num fervor poético que deixaria corado o mais ínvio dos estribilhistas Pimba. Por mim, suprimia o envio de sms’s no Natal, só as permitindo no regresso da Primavera para as voltar a interromper na Páscoa, altura em que o senhor Alfredo do Talho, a quem um dia encomendámos um quilo de carne da vazia, nos pretende recrutar com ‘nsta data k pasa/ p si e familia/ os comprimentos do amigo/ k lhe dsja pascoa feliz’. Por isso, peço a todos que me lêem, o imenso favor de me ignorarem na vossa generosa gratidão festiva, na certeza de que vos rogarei a maior das pragas se receber uma só palavra que seja sobre votos de uma feliz estação. Ela será tão mais feliz quanto mais em silêncio se mantiver essa maquineta infernal que trago no bolso e que, em natais passados, já pagou as favas contra uma parede ou imerso na banheira onde tentava replicar ao enésimo ‘poema’ fraternal.
3. E que dizer do Ano-Novo, quando, exactamente à meia-noite, o bip-bip-bip matraqueador ensurdece todos os que se encontram em celebração de despedida e os faz agarrar-se ao famigerado aparelho, ignorando tudo à volta, como se estivéssemos numa colónia de autistas cujo único meio de falar ao mundo fosse um conjunto de botõezinhos, com os polegares a dar, a dar, para no fim não dizermos absolutamente nada? Proponho então que se institua uma mensagem universal, que se mande uma vez na vida, uma só vez, e que valha para todo o sempre: ‘Felicidades por teres nascido/ Felizes Aniversários/ Natais/ Anos-Novos/ Páscoas & Afins/ Esta mensagem não carece de resposta/ Agradecido’. É que, no meu caso particular, quando recebo uma mensagenzinha natalícia tendo a acautelar outras que aí venham em festas vindouras e respondo: ‘Boas Frestas e um Feliz Anus Novo’. Remédio santo.
Pedro Abrunhosa
Porto, 1 de Dezembro, 2009
1. Não sei como é nos outros países, mas há em Portugal um costume que me intriga particularmente que é o de toda a gente querer afirmar-se como ‘dona’ de um determinado espaço ou movimentação pública. Passo a explicar: de cada vez que uma praia, por exemplo, entra na moda, tipo Comporta, Moledo, Manta Rota, não há português que não jure sempre lá ter passado os verões, ‘desde que me lembro, muito antes de isto agora ser o que é!’. O enigmático é que a ser verdade, há certos paraísos, agora destinos fashion, que já seriam então muito fashion desde os anos 50, 60 ou 70, tanta gente jura frequentá-los desde o berço. O que, se nalguns casos possa ser verdade, a julgar pela imensidão dos testemunhos tipo ‘isto antes era muito diferente’, há um paradoxo que, desde logo, torna impossível a convivência do conceito massificador da moda, com a paz retratada nos relatos que se pretendem oferecer como ‘o primeiro no local’, tal é o número que chama a si essa virtude. E isto não é uma variável. É uma constante. Há muita gente por aí que não só descobriu Cacela-Velha, Mira ou S. Martinho, mas que passou simultaneamente a infância em sete ou oito praias distintas. Todas suas e só suas, onde antes somente havia ‘pescadores’. Ah! Esse folclore do imaginário colectivo que vê pescadores em todo o lado e onde agora pululam discotecas. A saudade com que adolescentes e mais velhos se referem à faina marítima, a essa imensa mole proletária dos mares: as calças arregaçadas e camisas xadrez, num misto de Kurt Cobain e Zé dos Polvos, muito antes da avalanche do DJ Isto e DJ Aquilo terem desvirgindado este recanto sagrado com os seus sons bum-tch-bum-tch-bum techno. Porventura eles próprios tornados DJ’s pela força sociológica destas movimentações estivais, os pescadores idos passeiam agora por entre perfumes de Free-Shop e margaridas no cabelo, sob o nome de MC Faneca e VJ Sardine. Oh! Como vão longe os tempos em que para aqui ‘vinha sozinho mais a esposa, pela antiga estrada de terra e não havia esplanadas de cadeiras verdes nem jeeps em cima das dunas’.
2. A este propósito, também somos peritos em reivindicar como nosso um restaurante, um bar, agora caídos na desgraça, para nós claro, das garras da moda. ‘Porque eu sempre lá fui jantar, ainda aquilo era uma tasca’. E lá vem o repositório do folclore piscatório, agora disfarçado de fadistas, salpicões e azulejos com manguitos. Quem diria que, para enfatizarmos o conhecimento de há anos e anos de tal ou tal restaurante, o tenhamos de degradar ao ponto da bisca lambida, do calendário do Júlio dos Pneus ou das contas feitas a lápis no mármore do balcão? Há em todos nós uma imensa vontade de passado, uma saudade faduncha de coitadinho que nos faz exagerar ao ponto da caricatura locais que chamamos de ‘nossos’. Isto na esquizofrénica tentativa de, simultaneamente, seduzir os que desconhecem, agigantando-nos aos seus olhos, e expulsar os usurpadores, aqueles que vieram depois, que trazem as criancinhas a correr por entre as mesas aos domingos e umas louras duvidosas durante a semana. Em suma, adoramos dizer que fomos os primeiros a descobrir a tendência, antes desta virar moda.
3. Somos todos visionários: foi graças a nós que a Madonna é quem é, ‘porque antes era uma desgraçada a tentar furar, mas eu sempre soube que ela ia lá’. E por aí fora. Adoramos ser ‘descobridores’ de coisas ‘novas’. Mas a realidade é bem diferente: somos uns carneiros a quem só o que virou lugar-comum é apelativo. Ansiamos pelo aval medíocre da multidão, para nos sentirmos protegidos nas opções que fazemos. Precisamos de tops nas livrarias para saber que livro comprar. E se não estiver logo entre os três primeiros, duvidamos e vamos ao de cima. Sobretudo quando não sabemos o que oferecer e, arrebatados por um golpe de súbito intelectualismo, optamos ‘pelas leituras’, sabendo de antemão que a prenda irá directa para os arrumos na garagem e que o aniversariante nunca na vida leu mais que o “No teu Deserto” ou “As palavras que nunca te direi”. Dois títulos explícitos do divórcio entre moda e literatura. Dostoievsky? Quem é? Em que filme aparece? Não é aquele cozinheiro polaco do Bar do Meco? Vamos aos restaurantes onde se vai. Ponto. E quantas vezes a cozinha é uma fraude mas fica mal dizer que, para comer, o sítio é uma valente merda? As praias que assumimos como pertencentes à família há gerações, são locais aos quais não dá nenhum jeito ir, mas, noblesse oblige, é lá que está o rebanho que avaliza aquele mar e aquele pedaço de areia como ‘in’. Precisamos do conforto do colectivo para não nos sentirmos sós, ridículos, numa praia qualquer, sem nome e deserta, onde não nos chega a limpidez das águas, precisamos da sujidade das pessoas. No fundo, somos uns seguidores de sondagens que já nem sequer equacionam o valor da liberdade. Todos somos sancionados, revistos, escrutinados a todo o instante. Para sermos alguém, procuramos identidade onde ela nunca existiu. Perdemos a nossa e abdicamos do melhor que temos: a capacidade de escolher.
Pedro Abrunhosa
Porto, 1 de Novembro de 2009
1. Sempre que ouço a palavra ‘famoso’ eriçam-se-me os pelos que ainda me restam na nuca. Não são muitos, mas os necessários para se prolongarem num calafrio de pele de galinha que se estende até à náusea. Ser ‘famoso’ em Portugal, e um pouco por todo o mundo ocidental, deixou de ser fruto de algo que se fez, para passar a ser a rampa de lançamento de algo que se pretende vir a fazer. É a mais repetida justificação para a míriade de ‘actores’ e actrizes’ que pululam por aí e que são, ainda, imberbes manequins de fundo de catálogo duma agência qualquer. É a mesma explicação que ouço às centenas e centenas de ‘músicos’ em início de carreira com os quais me cruzo e que vão, no entretanto, estudando direito não vá o diabo tecê-las e essa coisa da ‘fama’ lhes correr mal. “Quero que o meu filho seja famoso pelas oportunidades que daí possa tirar”, é a frase mais vezes redita pelos pais dos inúmeros ‘talentos’ que diariamente pululam pelas dúzias de programas televisivos onde se começa por ser figurante e se acaba capa de revista de dentista ou ‘apresentador’ de concursos para mais ‘famosos’. Pelo meio, ficam invertidos os valores e os processos: salvo distintas excepções, já ninguém acredita que frequentar um conservatório, uma escola artística, viajar, ler, trabalhar, acrescentar mundo por dentro, possa valer mais do que um fugaz frame numa novela teen.
2. Depois já se criaram espaços exclusivamente destinados a esta nova profissão que é ser ‘famoso’. O ‘famoso’ entra por portas distintas nas discotecas fashion e ocupa o seu lugar no trono que lhe é destinado. Tem lugar de destaque em qualquer espaço público, seja num desafio de futebol ou numa romaria. Algo que lhe dê ou prometa visibilidade, e o ‘famoso’ estará lá. Uma vez instalado, convém que seja visto pelos comuns, o poviléu, aqueles que não o são mas gostariam de ser, também eles, ‘famosos’. Este profissional da ‘fama’, regra geral não fez ainda nada que o/a destaque, mas, ou porque o silicone lhe assenta bem ou porque namora com criatura de igual estirpe, ganhou, justamente, lugar cativo em revistas onde o que importa é como e com quem se está, mais do que a obra que supostamente um famoso deve apresentar. O nosso ‘famoso’ fala alto quando em público, exibe um moreno invejável todo o ano e sorri com dentes de teclado duma alvura infinita. Pode ser divorciado ou ter acabado de se casar, com cavalos brancos pelo meio e miosótis e dálias a esvoaçar, provavelmente numa praia do Alentejo. DJ’s a bombar, e meninos rosadinhos a depenicar o vestido de noiva feito por estilista, também ele ‘famoso’, e estão criados os ingredientes necessários para uma visão de mundo típica desta nova classe: um trabalhinho aqui, outro acolá, uma fotografiazita na Crónia Feminina, se esta ainda existisse. Uma noção de ‘carreira’ que, ou muito me engano, ou o ‘famoso’ pagará caro no futuro. É que esta palavra, ‘futuro, é algo que é implacavelmente incompatível com a ‘fama’, porque só existe na exacta proporção do empenho que se coloca na obra, no trabalho, no aperfeiçoamento de um projecto e que decresce exponencialmente com a inutilidade desta.
3. Esta nova categoria profissional, ‘famoso’, deveria ser tributada em sede fiscal, com direito a categoria própria no emaranhado da teia das finanças. Se há quem faça disto vida, e se as cerzideiras pagam impostos, ainda que a recibos verdes, porque deverão ser excepção os ‘famosos’? O ‘famoso’ vive de aparecer, convidado ou não. Deveria ser possível deduzir no IRS a quantidade de amigos ‘famosos’ que temos porque é nosso dever pagar-lhes o jantar e todas as despesas inerentes ao prazer que nos dá a sua companhia. Afinal somos nós quem mais beneficia quando ladeados por um ou dois ‘famosos’: toda a aldeia baba de inveja pela benesse e o privilégio que é conviver com cidadãos tão notáveis. O ‘famoso’ devia ter lugares de estacionamento devidamente sinalizados com um logótipo como, justamente, as grávidas e os deficientes. O ‘famoso’, ainda que generosamente goste de passear pelo meio do povo suado num shopping, por exemplo, deve a isso ser poupado, pelo que as grandes superfícies, farmácias, hospitais, e, regra geral, todos os locais onde possa existir gente que trabalhe, deveria ter corredores especiais para a ‘fama’, como nas ruas citadinas os há para os transportes públicos e prioritários, vulgo “BUS”, só que para ‘famosos’. Deveria mesmo ser distribuída pelos ‘famosos’ um passe, uma espécie de salvo-conduto ou mesmo um cartão plenipotenciário que os identifique inequivocamente. Poderia ser colocado ao peito, ao jeito de um agente da autoridade, com a palavra ‘FAMOSO’, assim, tal e qual, em maiúsculas, para que as pessoas que ainda não são assim lá muito, muito ‘famosas’, possam sair da frente e pasmar como nós, portugueses, bem gostamos de fazer, por exemplo, quando alguém faz um buraco na estrada e todos ficam intrigados. O ‘pasmanço’,é, de resto’, o estado de alma que está na antítese do ‘famoso’, porque este já foi à República Dominicana e portanto, a bem dizer, já viu tudo e não pasma com nada. Nadinha mesmo. E mais, com a crise que vai na justiça e os juízes a precisarem tanto de uma ajuda para aviar processos, porque não dar aos ‘famosos’ alguns casos para que estes os julguem? E o mesmo critério deveria ser aplicado às listas de espera dos hospitais: que importa um cirurgião qualquer se se pode ser operado por um ‘famoso’. Quem não escolheria esta segunda hipótese, heim? E por aqui me fico hoje. Como diriam alguns ‘famosos’ que tenho o privilégio de conhecer: “Prontos, Pá. Tá feito. Jokas e jinhos:”
Pedro Abrunhosa
Porto, 1 de Outubro de 2009
1. A propósito da troca de medicamentos no Hospital de Santa Maria em Lisboa, perguntaram-me se continuava a confiar nos hospitais públicos. A minha resposta foi, obviamente, afirmativa. Afinal não é para lá que corremos assim que sentimos uma emergência, um imprevisto num tratamento feito numa clínica privada, um inesperado sintoma na rotina da saúde? À força de tanto se ter enterrado o país numa perspectiva de lucro a toda a brida, todos os sistemas públicos foram, de uma forma ou de outra, desinvestidos. Da educação à justiça, da saúde à segurança social, lá foram os nossos sucessivos governos desacreditando paulatinamente aquilo que deveriam ter defendido e incentivado, criando de forma sistemática uma falsa ideia de que ‘no privado é que se está bem’. Ora, se a justiça ainda é a área que não foi totalmente privatizada, veremos que estratagema se arranjará no futuro para que cada português com dinheiro possa ter o seu próprio juiz e cada empresa poderosa o seu próprio tribunal, quem sabe até a funcionar num shopping próximo de si. O mesmo se passa com o Serviço Nacional de Saúde: concebido originalmente para ser gratuito em absoluto e para suprir as dificuldades económicas dos mais desfavorecidos, hoje é apenas uma sombra de tais intenções mercê da desorçamentação contínua para o sector. Contudo, é ainda ao serviço público que a maioria dos portugueses continua a recorrer inequivocamente quando confrontada com o desespero. Para além das razões humanas e sociológicas que possam explicar esta opção, há uma que salta à vista: o Estado é considerado como pessoa de bem, ainda que se possa portar inversamente. É que nos hospitais públicos os utentes não são ainda um cheque no final da consulta, nem os médicos, enfermeiros e pessoal administrativo assalariados com targets empresariais definidos no início de cada ano fiscal.
2. Recentemente em Nova Iorque necessitei, por razões menores, de consultar um médico. Os Estados Unidos são um país com inúmeras coisas boas, do Jazz à rapidez da justiça, mas seguramente que o sistema de saúde é, talvez, um dos piores do Mundo, ombreando com o dos países sub-desenvolvidos. O que me aconteceu a mim, acontece diariamente a milhões de cidadãos norte-americanos: após ter tentado, em vão, dois hospitais privados e tendo-me sido recusado atendimento por não possuir seguro médico adequado, lancei-me num frenesim de tentativas telefónicas para consultórios médicos que amigos e conhecidos me iam apontando. Depois de me apresentar com a maior das rapidezes à funcionária que me atendia e tentar expor o meu caso, era-me feita uma única pergunta: “tem seguro de saúde?”. Ao tentar responder que não, e na tentativa de procurar alternativa, o telefone era consecutivamente desligado. Até que, entre a febre galopante e já dominando as nuances do sistema, ao quarto telefonema, e perante a mesma pergunta respondi avidamente: “Não tenho seguro americano, mas tenho dinheiro. Dólares. Euros. Ok?”. Para quê tanto trabalho se podia ter logo no primeiro hospital pronunciado as palavras mágicas. Um cifrão é, nos Estados Unidos, a cura de todos os males.
É este o sistema que nos tentam, a pouco e pouco, impor em Portugal. E, de resto, já em óbvia falência nos EUA. Obama está a tentar fazer passar no Congresso nova legislação que permita acesso gratuito e generalizado a todos os norte-americanos à rede de saúde pública. Os velhos do Restelo com pronúncia texana não se fizeram esperar. Multiplicam-se manifestações, debates e acendem-se ódios antigos. Aparentemente, a opinião pública acha mais conveniente canalizar os impostos para o sistema de defesa, neste caso de ataque pífaro ao Iraque, do que num regime de saúde vigoroso que abarque todos.
3. A quem recorreremos nós, portugueses, quando o surto de Gripe A atacar em força, como se prevê em Outubro e Novembro?
Como será de esperar, caberá aos hospitais públicos, aos centros de saúde e de triagem esta tarefa hercúlea. Uma vez mais, com o credo na boca, é ao Estado que os portugueses confiam o seu bem-estar. Saibam os políticos tirar as ilações e pugnar por um sistema de saúde eficaz, gratuito e generalizado. Por menos se tomou a Bastilha. E esta é uma pastilha que nem os grandes operadores privados de saúde vão querer enfrentar.
Pedro Abrunhosa
Porto, 1 de Setembro de 2009
1. Há características extraordinariamente comuns às pessoas medíocres. Seja qual for a sua área de trabalho, os medíocres encontram sempre uma estratégia para se fazerem passar por responsáveis, e, espantosamente, conseguem-no. Todos os países tem a sua quota de medíocres, uns mais e outros menos, é certo, porque a mediocridade só tem consequências reais se for tão comum que se torne visível, e, entre nós, não só é visível como recompensada. O que define o medíocre é o facto de não ser bom em nada, nem péssimo em tudo. Se fosse péssimo a sociedade lá arranjaria uma forma mais expedita de se ver livre dele, mesmo que fosse promovendo-o a Marechal, com a Ordem de Cristo ao peito, ou reformá-lo com honra, distinção e uma verba choruda. O medíocre não se deixa enrolar com tão pouco. Ele é um ruminante da vida, uma toupeira de esquemas e matreirices, um lambe-botas encartado sempre à espera da oportunidade de não fazer nada dando a sensação de que fez tudo para que nos salvar do cataclismo. Ele nunca é responsável pelo falhanço, pela inépcia, pelo desleixo, pela fraude. O medíocre não ‘sabe nada’ e sempre fez tudo ‘dentro da maior legalidade’. Pelo contrário, se não fez mais foi porque ‘não lhe deram condições’. O medíocre não se preocupa com mais nada que não seja o crescimento da sua conta bancária à custa do menor dos menores esforços. E esta é uma atitude transversal às mais diversas actividades profissionais. É assim nos restaurantes que nos atiram, em travessas de inox gordurosas, miscelâneas esverdeadas e cinzentas que pomposamente vem descritas na lista como “vitela à casa”. É assim na construção civil quando nos ofuscam com fichas técnicas infalíveis de apartamentos já plenos de rachas nos mosaicos e infiltrações no lugar dos chuveiros. É assim na política quando, mandato após mandato, se agravam problemas urgentes que apenas carecem de quem se preocupe genuinamente com eles, de quem se debruce, denodado à causa pública, e, no mínimo, em honrar o cargo. Mas o medíocre não sabe o que é honra, porque na maior parte das vezes ele não foi eleito para nada. O medíocre é, geralmente, nomeado. O seu curriculum é ser amigo de um amigo com quem frequentou a Universidade, ou insistir, com a assiduidade de quem procura a brecha, os ambientes onde pululam os seus pares: outros medíocres igualmente perigosos e inúteis. Pode ser um circuito de bares, festas, jantares em casa de fulano ou mesmo apenas uma férias em hot-spots do Algarve. Como num aquário onde, à mão, se pescam peixes-vermelhos que se fazem passar por trutas, também nestes salões saloios de medíocres se espera pela vez, pela oportunidade do cargozito, da promoçãozinha, da nomeação ‘inesperada’. Em caso de crise, por exemplo governamental, é só perguntar ao amigo: “Ouça lá, você está a ver alguém para Director-Geral de Não-Sei-o-Quê?”, ao que o outro responde: “Eh pá, assim de repente não estou a ver, mas deixe-me na quinta-feira falar com o Cicrano no jantar de Beltrano. Tem que ser do Partido?”. E lá vai a mão ao aquário arrancar o peixinho-vermelho, vesti-lo de truta e pronto: mais um alto funcionário do estado a ganhar uns milhares que façam jus à sua ‘extrema competência’. Infelizmente, na maior parte da vezes, assim funciona o País.
2. É claro que são as ‘elites’, mormente os políticos, quem mais sanciona a mediocridade ao conferir-lhe responsabilidades. Ora responsabilidade e mediocridade são, ou deveriam ser, como a água e o azeite: não se misturam nem à força. A não ser com a muito boa vontade dos bastidores que estas ‘elites’ fabricam. E aí, nem a mais elementar lei da física resiste: a gravidade é a força que atraí a terra ao centro de qualquer corpo, nunca o seu inverso. Ao ditarem a regra no altar público, estabelece-se que ser madraço e pobre de espírito pode compensar.
Todos os dias assistimos, indefesos e atónitos, ao surgir de fantásticas figuras exímias nesta imensa arte quase tão portuguesa, não fora existir América Latina ou África para nos suplantar. Por exemplo: Dias Loureiro, ex-ministro, ex-Conselheiro de Estado, ex-presidente da SLN, ‘administrador’ de empresas, assinou, nesta última qualidade documentos, dos quais agora ‘não se recorda’, entre a SLN e uma empresa de Porto Rico que trouxeram instantaneamente prejuízos de 40 milhões de euros à primeira. Não me parece que tenha ficado muito preocupado com isso. Afinal o dinheiro não era seu, mas dos accionistas e, em última análise, dos clientes do BPN, entidade bancária tutelada pela SLN. Hoje, todos pagamos através dos nossos impostos, este e outros golpes deste Rei dos Medíocres, cujo curriculum não passa de ter estado à hora certa no aquário dos amigos de Cavaco. Mas, tendo feito ‘tudo dentro da legalidade’ e ‘tendo dado o seu melhor’, espera-se, o mais comum dos desfechos: o estrondoso falhanço de uma punição merecida e até, quem sabe, uma medalhazinha no 10 de Junho próximo, se não a tiver já. Os medíocres adoram medalhas. O Mutley também. Por isso sorria sempre ao seu dono.
3. Quando recentemente morreu essa figura ímpar da Cultura Portuguesa, João Bénard da Costa, homem de imensa dimensão ética e de um empenho invulgar de competência e rigor, por exemplo à frente da Cinemateca Nacional, logo apareceu na TV um senhor de ar lambido e ávido a fazer-lhe o elogioso epitáfio. Para meu espanto, em vez de falar da obra única de Bénard da Costa, usou o tempo de antena para afirmar esta frase extraordinária, e passo a citar: “Quem lhe suceder, só pode ser um simples humano.”(sic) Claro que não estamos à espera de um Deus para suceder a Bénard da Costa. Afinal ele era o mais simples e humano dos homens. Apenas era competente. Muito competente. O que, não sendo uma obrigação, não deixa de ser extraordinário em qualquer cargo público, mas não uma característica divina. Ora, o que este senhor lambido e ávido, cujo nome não me lembro, queria mesmo dizer era: “Bom, agora que o cargo para Director da Cinemateca está em aberto, ‘farei o meu melhor’, ‘dentro da legalidade’, uma vez que tenha este tacho garantido nas mãos.” Vim a saber depois que o dito era, aparentemente, o número dois da Cinemateca. Está bom de ver. Água e azeite afinal misturam-se. É a voz não só do puro medíocre como do peixinho-vermelho vestido de truta. E lá irá ele, todo contente e repimpado por ter estado no aquário dos ‘disponíveis’ à hora certa, tomar posse de ‘coisas importantes’ e de ‘muita responsabilidade’. Um dia também ele terá a sua merecida medalha. Os Mutleys não falham.
Pedro Abrunhosa
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